A saúde mental no serviço público está em estado de alerta. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 264 milhões de pessoas sofrem de depressão e ansiedade no trabalho, causando uma perda de US$ 1 trilhão por ano à economia global. No Brasil, foram registrados mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025, batendo recorde pela segunda vez em uma década.
Os números foram apresentados na última quinta-feira (3) (veja aqui) pela advogada Eliane Monteiro Cesário, assessora do Sinditamaraty e coordenadora do Núcleo de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio, durante palestra promovida pelo Anffa Sindical, com apoio da Delegacia Sindical do Distrito Federal (DS/DF), em alusão ao Setembro Amarelo, com o tema “Riscos Psicossociais no Serviço Público: Enfrentar, Prevenir e Cuidar”.
O evento, realizado na sede do Sindicato, foi transmitido ao vivo via Youtube (veja aqui) e reuniu filiados e lideranças sindicais para discutir o que especialistas chamam de “assédio institucional”, um fenômeno que, segundo a palestrante, está enraizado na própria forma de administrar o serviço público.
A violência como método de gestão
“A gente precisa falar de assédio porque o assédio não é uma briga entre pessoas. O assédio é uma violência. É uma forma de administrar, é uma forma de gerir aquele lugar”, afirmou Eliane Cesário durante sua exposição.
A especialista traçou um paralelo entre a experiência construída ao longo de mais de uma década no Sinditamaraty e a realidade dos servidores do Mapa. Em 2017, uma pesquisa realizada em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) revelou que 66,1% dos servidores do Itamaraty consideravam ter sofrido assédio moral nos últimos cinco anos. O estudo apontou ainda que 80,3% testemunharam situações de assédio no mesmo período.
“Quando o assédio se torna uma prática recorrente, é preciso entender que o problema não está na vítima, mas na gestão. Quem assedia e viola direitos demonstra não ter capacidade para exercer a função de liderança”, reforçou.
O que é risco psicossocial?
A palestra também abordou o conceito de risco psicossocial, recentemente incorporado à Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho, que estabelece diretrizes para o gerenciamento de riscos ocupacionais.
Entre os fatores apontados estão jornadas exaustivas, sobrecarga de trabalho, falta de recursos, metas abusivas, desvio de função, competitividade excessiva, assédio moral, discriminação e violência de gênero. A especialista destacou ainda a “cultura da fofoca” como ferramenta de desqualificação profissional e o “microgerenciamento abusivo” como prática comum em ambientes tóxicos.
A advogada criticou a lógica de responsabilização individual que impera em muitas instituições. Para Eliane, essa cultura de culpabilização impede que os servidores busquem ajuda e denunciem. “As pessoas que sentem culpa de trabalhar porque estão de licença médica. A gente precisa lembrar: você é substituível. Alguém vai dar conta do trabalho. Mas você precisa cuidar de você.”
O papel do Sindicato
O presidente do Anffa Sindical, Janus Pablo, abriu o evento destacando a importância do debate e o compromisso do Sindicato com a pauta. “O enfrentamento ao assédio é pauta prioritária nas negociações com o Ministério da Agricultura. “Precisamos ser esse espaço de escuta e acolhimento, contribuindo para a mudança estrutural no ambiente de trabalho”.
Apesar do cenário desafiador, a especialista destacou avanços importantes nos últimos anos, como normas que reforçam a necessidade garantir ao trabalhador o estado pleno de bem-estar físico, mental e social.
Escuta protegida
Após a palestra, os participantes foram convidados a uma roda de escuta protegida, com regras de sigilo e confidencialidade, para compartilhar experiências e relatos sobre assédio no ambiente de trabalho. A etapa foi realizada exclusivamente de forma presencial, para resguardar a privacidade dos participantes.
A diretora de Comunicação e Relações Públicas da DS/DF, Patrícia Santana Ferreira, destacou a urgência do debate. “É urgente que discutamos igualdade de gênero e enfrentamento às discriminações dentro e fora do serviço público. Esse trabalho é uma iniciativa para o início dessas discussões, que devem ser abraçadas pelos filiados do Anffa Sindical e também pelo Mapa como um todo”.
Depoimentos
O diretor do Departamento de Política Profissional do Anffa Sindical, Oscar Rosa, avaliou a iniciativa como fundamental: “O assédio é uma coisa que acontece historicamente. De alguns anos pra cá, a gente vê que a coisa toma mais volume e o enfrentamento começa a acontecer de forma mais organizada e estruturada”.
Participante do evento, a AFFA Bethyzabel Araújo destacou a importância da capacitação: “Por mais que você já tenha escutado falar de assédio, é difícil nominar exatamente o que é, saber identificar. Às vezes você até já passou por assédio ou já viu alguém passar, mas não sabe identificar. E quando os especialistas trazem exatamente o significado, vem esse esclarecimento importante”.
O Anffa Sindical iniciou a elaboração de uma cartilha sobre prevenção e enfrentamento ao assédio e divulgará em breve para os filiados.







