Fonte: UOL
O caso isolado de Doença de Newcastle em uma granja comercial de corte de perus na cidade de Nova Itaberaba (SC) resultou no embargo total do México à carne aviária brasileira e à decisão voluntária do Ministério da Agricultura de suspender os envios de Santa Catarina para a China e o Chile. Os desdobramentos acendem um sinal de alerta com o temor de adesão generalizada ao embargo.
O que aconteceu
Caso isolado de Newcastle motiva restrição ao frango do Brasil. A enfermidade viral foi constatada após análise laboratorial. Mesmo com a suspensão da movimentação de aves na granja, o México decidiu suspender as importações de produtos avícolas do Brasil. A decisão abrange carne de ave e miúdos, aves canoras e ornamentais, além de material genético avícola, incluindo ovos férteis.
A decisão do Ministério da Agricultura restringe as saídas de aves vivas, carne e miúdos de aves, ovos férteis, pintinhos de até três dias e aves canoras, ornamentais ou de rapina destinadas à comercialização e aves de companhia para o principal comprador do frango brasileiro. A mesma medida foi determinada para alguns dos produtos de origem aviária destinados ao Chile.
Decisões voluntárias estão relacionadas com os acordos bilaterais. Celles Regina de Matos, presidente do Cidasc (Conselho de Administração da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina), explica que os autoembargos são determinados no momento de assinatura dos tratados comerciais. “É uma demonstração de transparência, confiança e respeito aos acordos, o que só melhora nossa relação”, afirma ela.
Santa Catarina é o segundo maior exportador de carne de frango entre os estados do país. O estado responde por 23,28% das exportações, ficando atrás apenas do Paraná, com 40,76%. Em terceiro está o Rio Grande do Sul, com 13,30%. A região Sul representa 77,3% das exportações brasileiras de carne de frango.
Ocorrência pode resultar em novos embargos nos próximos dias. Após o relato oficial do foco, cabe às autoridades sanitárias decidir se mantêm ou suspendem as compras das proteínas brasileiras. “As suspensões preventivas pontuais ocorrem até que os esclarecimentos sejam apresentados pelas autoridades brasileiras, o que tem ocorrido com rapidez e eficiência desde a confirmação e anúncio da ocorrência”, afirma Ricardo Santin, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal).
Controle sanitário
Autoridades monitoram raio de 10 km a partir do ponto onde o vírus foi detectado. Matos explica que a ação envolve a visita a 1.600 propriedades rurais na região para avaliar as aves e reforçar práticas de biossegurança nos aviários. Além de Nova Itaberaba, também estão em emergência zoossanitária os municípios de Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim, todo em Santa Catarina.
Cerca de 6.000 perus serão sacrificados na propriedade afetada. Os animais infectados estavam com 110 a 115 dias de vida e a “despopulação” da granja seguirá os protocolos da Omsa (Organização Mundial de Saúde Animal). “Sabemos da nossa força de ação e temos a certeza de que toda a equipe do Mapa estará dedicada a impedir que a crise se alastre”, diz Janus Pablo Fonseca, presidente do ANFFA Sindical (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários).
Pesquisa sorológica será realizada em 133 granjas comerciais da área delimitada. A medida busca identificar se há presença silenciosa do vírus em animais com mais de 12 dias de vida antes de solicitar o fim do foco de contaminação ao Ministério da Agricultura e Pecuária.
Processo para o Brasil recuperar o status de livre da doença pode levar 90 dias. A contagem começa após a desinfecção e a declaração oficial de que a propriedade está totalmente limpa, enquanto o monitoramento no entorno dura 42 dias. “Temos uma corrida contra o tempo para eliminar isso o quanto antes”, afirma a presidente do Cidasc.
Perdas potenciais
México foi o sétimo maior comprador do frango brasileiro em 2025. Dados da ABPA mostram que as vendas para o país cresceram 15% e alcançaram 244,39 toneladas no ano passado. O total equivale a 4,73% da participação do México na balança comercial do produto nacional. Quase a totalidade dos negócios (98,6%) envolve a negociação dos cortes da carne aviária.
Neste ano, o país norte-americano manteve a compra do frango. De janeiro a setembro, o Brasil exportou US$ 423 milhões de carnes de aves e suas miudezas comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas para o México. O valor corresponde a 5,4% do total vendido no período e aparece atrás apenas da China (14,8%), do Japão (11,6%), da Arábia Saudita (10,2%) e dos EUA (8,8%), segundo dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
A China, por sua vez, é a maior compradora do frango brasileiro. O pais asiático consome cerca de 10% da carne aviária produzida no Brasil. Até setembro, foram vendidas 420,4 mil toneladas de carne de frango para os chineses, com uma receita equivalente a US$ 1,2 bilhão, salto de 113,2% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Fonseca destaca que maior apoio à fiscalização inibiria as perdas. Fonseca, do ANFFA Sindical, ressalta que a prevenção às crises sanitárias custa “uma fração” do prejuízo imposto pelos embargos comerciais. “São milésimos de reais em relação ao impacto negativo que um embargo pode causar para a sociedade brasileira”, relata ele.
Consumo liberado
Doença de Newcastle não inviabiliza a alimentação com frangos e ovos. As autoridades ressaltam que o foco isolado do vírus da doença não traz nenhum risco para o consumo de carne de frango e derivados. As entidades do setor e órgãos de defesa sanitária garantem que a enfermidade não é transmitida pela ingestão da proteína animal.
Risco da doença é restrito a quem faz o manejo direto de animais vivos infectados. Santin explica que o contágio humano é raríssimo. Segundo Fonseca, o contato pode causar apenas sintomas leves, como conjuntivite ou irritação respiratória moderada. “Embora seja encarada como uma zoonose, a Newcastle traz um risco populacional muito baixo”, relata.







