Papel do affa para a saúde única reforça importância da carreira

Perfil Affa: Conheça Rafael de Souza Oliveira

Foto: Arquivo Pessoal / Comunicação Anffa Sindical

A formação holística de Rafael de Souza Oliveira, de 36 anos, contribui para uma maior reflexão sobre seu papel como auditor fiscal federal agropecuário. Formado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2018, o affa natural do Rio de Janeiro cursou também Teologia e fez mestrado e doutorado na área da Educação. Após um período em Juiz de Fora (MG) em 2019, quando ingressou no Ministério da Agricultura, Rafael está desde 2020 no SIF 60, em Três Passos (RS), trabalhando em um frigorífico de suínos. Consciente da importância da luta coletiva, associou-se ao Anffa Sindical no mesmo mês de sua posse no SIF, e segue atuante, sendo um dos delegados do Rio Grande do Sul no VI CONAFFA, que ocorrerá de 24 a 28 de outubro. Conheça um pouco mais da trajetória de Rafael na entrevista abaixo.

Qual a tua formação acadêmica?

Fiz a faculdade de Medicina Veterinária na UFF focado em virologia, mais especificamente em biologia molecular, uma área laboratorial e muito técnica. Ao me formar, em 2018, senti que precisava de uma formação mais humana. A Educação se abriu como uma área de amplas possibilidades de reflexão. Iniciei um mestrado, trabalhando com promoção à saúde nas escolas, e, nesse mesmo período, cursei um bacharelado em Teologia. No doutorado, fiz um recorte histórico, uma teorização sobre Educação, Saúde e Religião na Constituinte de 1934. Essas escolhas foram resultado da uma trajetória de vida. Foi muito bom, porque a gente se depara com outros campos de estudo muito distantes da medicina veterinária e isso abre a visão de mundo, abrem outras perspectivas, outras formas de se ler a realidade. Cursei também duas especializações nas áreas de defesa sanitária e saúde coletiva.

Qual a relação da medicina veterinária com a saúde?

O médico veterinário não cuida só da saúde dos animais. Está inserido em um campo comum entre saúde humana, animal e ambiental. É o que chamamos de saúde única. A medicina veterinária se insere muito bem nessa tríade, muito embora se observe hoje uma formação, em geral, muito cartesiana. O médico veterinário, com as ferramentas necessárias, faz um trânsito muito interessante na saúde única, em especial, na promoção à saúde, tendo muito a colaborar nessa área em nosso país.

O que isso mudou na tua visão como médico veterinário?

Isso me tirou da visão das quatro paredes do laboratório e me fez ver o mundo com outra perspectiva. Abriu a possibilidade de outras leituras da realidade, outras leituras do mundo. Isso é muito importante para meu trabalho como auditor fiscal federal agropecuário. Tenho a consciência de que estou lidando não apenas com a letra fria do papel, mas com saúde pública, saúde animal e saúde ambiental, isto é, estou lidando com vidas.

Quais os desafios no trabalho de inspeção?

Estamos com um efetivo muito baixo. Sou encarregado do abate SIF 60, que é permanente, mas sou responsável por outros 15 SIFs, em diversos municípios da região, em empresas sob inspeção periódica. Temos dois veterinários conveniados por meio de acordo de cooperação técnica com a prefeitura e um agente de inspeção, que estão presentes durante o abate, o que me permite sair para atender a fiscalização periódica, cuja frequência depende do risco determinado para aquele estabelecimento. É latente que precisamos de novos affas. Esse, a meu ver, é o grande desafio na inspeção hoje.

Qual o maior desafio para o affa?

O grande desafio hoje para o auditor fiscal federal agropecuário é assegurar suas atribuições dentro da tríade: saúde animal, saúde humana e saúde ambiental. Acho muito perigoso a carreira caminhar para uma linha de forte adesão aos interesses do “agro”. Acho que tem de ficar bem demarcada nossa atuação. A preocupação dos auditores fiscais médicos veterinários é com a saúde. Como carreira, temos de ter muito cuidado para não entrar nessa linha de que somos parceiros ou colaboradores do agro, leia-se: grandes agroindústrias cuja prioridade é o lucro. Nosso papel é fazer com que o interesse público esteja sempre acima das preocupações do que hoje no Brasil se convencionou chamar de agro.

Quais os riscos do PL 1293?

Existe uma grande nuvem de dúvidas nesse campo. Pelas discussões, nós auditores continuaríamos presentes de forma permanente em empresas exportadoras. Mas é muito preocupante, há muitas dúvidas sobre o que vai acontecer com o mercado interno. De uma forma ou outra, virão mudanças, não vamos conseguir evitar. Mas temos de lutar para evitar males maiores, que seriam quaisquer riscos à saúde pública. Além disso, o PL do autocontrole hoje traz uma grande preocupação para a carreira, em termos de efetivo, em termos de valorização. A possibilidade de privatização da fiscalização representaria uma redução drástica nos concursos, o que enfraqueceria a carreira de uma maneira geral.

Por que decidiste te filiar? Qual a importância do sindicato?

Sempre fui muito consciente do trabalho dos sindicatos na defesa do interesse dos trabalhadores. Já tinha decidido que, assim que entrasse no Ministério da Agricultura, iria me sindicalizar, e foi o que fiz. No primeiro mês em que assumi o SIF, fui atrás porque sei da importância de lutar pelos interesses dos trabalhadores, porque se a gente não lutar, ninguém fará isso por nós. Costumo dizer: se o sindicato é ruim, como alguns alegam, sem ele é pior. Se reclamamos do sindicato, temos de entender que nós somos o sindicato, nós precisamos nos unir para mudar. Muitos colegas de SIF estão totalmente alheios à luta sindical. Talvez não se sintam representados. Precisamos refletir sobre isso. O sindicato não representa interesses individuais, mas da categoria, o que reflete em mim. Entender isso é uma questão de educação sindical. Estou aqui na luta, concordando e discordando das ações do sindicato em nível nacional.

Qual a tua expectativa para o Congresso Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (CONAFFA)?

Fui eleito para ir ao CONAFFA, a primeira eleição da qual participei. Pretendo levar a voz da base da categoria, ampliar a conscientização da importância da presença e da visão dos affas que estão na ponta. A tese que escrevi é uma proposta no sentido de recuperar o direito à greve, que é uma ferramenta muito importante da qual não podemos abrir mão. Hoje, eu Rafael, delegado eleito, defendo que o sindicato tem de buscar recursos jurídicos para recuperar essa ferramenta que já foi muito forte e útil no passado para reivindicação dos interesses da categoria. Vou lutar por essa conscientização, que precisa ser uma construção coletiva. Isso é uma parte da minha visão. Em geral, espero poder discutir os interesses da categoria, da base. Quem está na ponta precisa ser ouvido, por isso vou em busca de mais comunicação, mais transparência, mais participação.

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