06
Qui, Ago

AFFA na mídia

A Covid-19 trouxe consigo grandes impactos para saúde pública, economia e sociedade de diversos países. A epidemia também vem afetando certos aspectos da produção e comercialização de alimentos, onde a saúde no trabalho, a segurança alimentar e inocuidade de alimentos serão fatores de atenção e que influenciarão diretamente o comércio e o consumos de produtos agrícolas no mundo.

Embora não haja registro de transmissão por alimentos tradicionais, como soja, milho, vegetais, frutas, carne bovina, suína e de aves, a Covid-19 é por definição uma zoonose, com estudos científicos apontando para sua origem no consumo de alimentos de origem animal selvagem. No Sudeste Asiático, o consumo de alimentos frescos e perecíveis está associado ao conceito de produtos mais saudáveis. No entanto, o temor causado pelo vírus, conjuntamente com as dificuldades de logística e distribuição desses produtos, está mudando os hábitos alimentares dos países e levando o consumidor a optar por produtos seguros, incluindo em muitos casos, produtos processados, como carne congelada, enlatados e produtos desidratados.

Nesse cenário, uma tendência que se intensificou na Tailândia foi a de compra online, por ser ágil, segura e por evitar a exposição das pessoas ao contato e por consequência possibilidade de infecção pela Covid-19. Outra tendência é que grandes redes de supermercados ganhem espaço como fonte de distribuição de alimentos frescos e seguros, ao invés dos “wet markets”, ou seja, os mercados que vendem animais vivos ou mortos para consumo humano.

Isto já pode ser observado nos grandes supermercados tailandeses que, por solicitação do governo e numa tentativa de incentivar a agricultura familiar, estabeleceram um sistema de logística e distribuição integrados. Desta forma, pequenos produtores de hortifruti se tornaram fornecedores exclusivos da cadeia de supermercados tailandeses, garantindo a segurança de alimentos, o fornecimento de alimento teoricamente seguros e a “adequação” ao conceito de sustentabilidade.

Além disso, a tecnificação da cadeia de alimentos ganhará força, principalmente por conta da escassez de mão de obra. O sistema de colheita das grandes culturas na Tailândia, como arroz, cana-de-açúcar e mandioca ainda são totalmente dependentes de mão de obra imigrante, como laocianos, birmaneses e cambojanos. E, por causa das dificuldades de trânsito e circulação de pessoas para a contenção da Covid-19, o governo está sendo obrigado a investir mais em tecnologia aplicada ao campo. Outro motivo é o de usar a redução dede mão de obra como justificativa para garantir um padrão sanitário nas etapas de produção e, desta forma, buscar manter a confiabilidade no mercado doméstico e internacional.

Há ainda expectativa de aumento do consumo de alimentos mais baratos, devido à redução de poder aquisitivo como reflexo da crise econômica que já se instala em vários países, inclusive na própria Tailândia.

A garantia da segurança alimentar já é, em muitos casos, usado como forma de protecionismo disfarçado, e poderá ser o grande mote para o fortalecimento deste tipo de protecionismo. Diferente do que o Brasil adota, decisões como proibição de exportações para formação de estoques estratégicos, controle de preços ou aumento de subsídios agrícolas poderão ser adotadas por alguns países, que tenderão a favorecer a produção local e parcerias com países que tragam investimento para alcançar índices de produtividade agroindustrial positivos.

Representando 2,5% do comércio mundial de alimentos, a Tailândia está entre os principais exportadores mundiais de alimentos. O país exporta produtos com o arroz, principal produto agrícola exportado, seguido por frango, açúcar, atum processado, farinha de tapioca e camarão. Como membro da “Association of Southeast Asian Nations – ASEAN”, o país vem reforçando suas parcerias comerciais por meio dos acordos de livre comércio já firmados com diversos países da Ásia e considerados estratégicos para o comércio de seus produtos agrícolas.

Desde o ano passado, a China vem ganhando importância e é hoje o maior importador de alimentos da Tailândia, substituindo, coletivamente, o Camboja, o Laos, a Malásia e o Vietnã. Em 2019, as exportações de alimentos tailandeses para a China atingiram US$ 4,7 bilhões, um aumento de 34% e representando 14,7% do total de exportações de alimentos.

Ainda, de acordo com as previsões realizadas pelo setor privado tailandês, as exportações de alimentos da Tailândia, principalmente para a China, provavelmente dobrarão no segundo trimestre deste ano, impulsionadas por um aumento na demanda depois que os estoques de alimentos no primeiro trimestre se esgotarem.

O país, sabiamente, vem se aproveitando das boas relações com os países vizinhos e confirmando, mais uma vez, o título de “A Cozinha do Mundo”, com base nas parcerias estratégicas regionais, na confiabilidade e estabilidade do comércio e, se tornando um país estratégico na garantia da segurança alimentar na região do Sudeste Asiático.

Maria Eduarda da Serra Machado – Adida Agrícola na Embaixada do Brasil na Tailândia

Publicado no site: Abrindo a porteira

0
0
0
s2sdefault